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Palestra da psicóloga Tânia Possani

É sempre difícil planejar uma fala para alguém que não se conhece. Por isso eu desde já peço a compreensão de vocês caso minha fala seja muito alheia ao que vocês gostariam ou precisariam. E nesse caso, espero que a gente estabeleça um diálogo hoje, para que eu me reformule e me aproxime mais de vocês.
Vocês são pais de crianças pequenas, crianças que dependem absolutamente ou relativamente dos cuidados de vocês (ou do ambiente em que elas estão) para serem atendidas em suas necessidades.

Creio que isso seja fato notável e não haja dúvidas sobre essa condição. A questão sobre a qual eu acho importante nos atermos é ao que me referi como necessidades. Todos aqui são responsáveis por atender a necessidades de pessoas que não podem provê-las por si mesmas. Acho que essa é uma das questões em que todos aqui estão implicados: pais e funcionários da escola.

Geralmente, as necessidades físicas de uma criança são facilmente reconhecidas: é preciso providenciar seu alimento, cuidar de sua higiene e do seu sono, favorecer seu andar e as aquisições de movimentos, etc. Esse cuidado pode ser realizado naturalmente sem que precisemos seguir com manuais: sabemos da fome, prevemos o sono, nos alegramos e acompanhamos espontaneamente as tentativas de andar, pular, dançar.

Mas, muitas vezes seguimos com algumas orientações médicas, com manuais que felizmente, na maioria das vezes não impede com que esse cuidado seja provido com naturalidade e espontaneidade.
E eu gostaria de colocar essas palavras em neon naturalidade e espontaneidade porque elas são elementos fundamentais para o cuidado com outro aspecto da criança que só se distingue aqui em fala para uma apresentação didática – pois todos os aspectos de uma pessoa estão presentes e em movimento o tempo todo. Eu estou me referindo ao aspecto comumente chamado de emocional.

E o que tenho notado na clínica e no contato pessoal com pais é que quando se trata de prover um cuidado ao desenvolvimento emocional, os cuidadores ficam absolutamente perdidos, e não conseguem agir com naturalidade e espontaneidade. Embora também possamos ser orientados e possamos seguir manuais sobre como agir para favorecer o desenvolvimento emocional, isso geralmente não funciona, pois trata-se de uma faceta do ser humano que não funciona pela lógica de causa-efeito, e ainda, não há uma lógica de funcionamento igual que seja igual entre seres humanos. O clichê “cada ser humano é único” é absolutamente verdadeiro.

Então, o que fazemos aqui, ouvindo uma psicóloga falar de algo geral, genérico e não especificamente sobre o próprio filho? Eu estou aqui para tentar estabelecer com vocês um diálogo sobre essa difícil tarefa de cuidar, de encontrar e de construir respostas únicas.

Então, quando a criança começa a precisar de cuidados de ordem emocional e nós buscamos regras de conduta – como por exemplo: meu filho está agressivo e isso não é certo. Eu fui orientada ou li que diante disso eu devo fazer tal coisa e eu faço tal coisa. Desse jeito eu, mãe, estou correndo o risco de estar promovendo uma violência com meu filho e certamente estou me furtando do trabalho de encontrar a maneira singular de ajudar meu filho a lidar com alguma questão. Ou, tenho uma conduta que funciona em casa e espero da escola a mesma conduta e não permito que esse ambiente (escola) aja com a naturalidade e espontaneidade diante do meu filho. Ainda, se eu tenho como pré-suposto que tais e tais comportamentos são inadequados, ou tais comportamentos são os corretos e eu me empenho para que meu filho os siga, novamente, posso estar ferindo com o desenvolvimento de sua singularidade.

Nós conseguimos reconhecer e favorecer um potencial de desenvolvimento físico. Reconhecemos o potencial da criança a se movimentar, a se colocar de pé, a andar e nos oferecemos como sustentação. Da mesma forma podemos reconhecer elementos potenciais para o desenvolvimento de uma personalidade, de um modo de ser, e da mesma forma podemos e devemos nos oferecer como sustentação.

Assim, eu quero chamar a atenção de vocês para o desenvolvimento desse modo de ser que tem características absolutamente singulares, mas que tem tendência comum: todo ser humano tende a ter um corpo integrado, a reconhecer esse corpo como sendo seu, a desenvolver um eu que mora nesse corpo, a ter um psiquismo que organiza suas experiências e tende a desenvolver um modo de ser que vai se expressar tanto na sua organização física, quanto psíquica.

O grande problema acontece quando nos esquecemos que tudo isso está por se desenvolver e precisa de sustentação e achamos que trata-se de treinamento, de imposição, de ensinamento pedagógico de um modo de ser que nós julgamos adequados. E isso nunca aparece como uma má intenção dos pais. Isso geralmente é uma tentativa de fazer o melhor para o filho, uma ansiedade em fazê-lo ser uma pessoa boa e melhor.

A criança terá muito tempo para ser boa e melhor e nessa idade, até os quatro, cinco anos, ela precisa ser ajudada a simplesmente ser. Ela precisa ser ajudada a ter um corpo, a abrigar dentro desse corpo seus impulsos, seus desejos, seus sentimentos e a reconhecer tudo isso somo sendo ela mesma. E uma vez que ela reconhece que ela é uma pessoa limitada por um corpo, ela também reconhece que existem outras pessoas, e para ela se impõe a tarefa de ter que se comunicar pela linguagem compartilhada, a tarefa de se relacionar com esse outro sobre o qual ela não tem controle. E é só a partir daí que ela passará a adquirir repertório intelectual, consciência de como adquirir o que quer do outro, dos limites do outro, de preocupação com o outro, e tudo o que se refere ao social. Enfim, só depois de se tornar alguém (de se sentir, de ter a experiência de que é alguém) é que ela poderá lidar com regras de conduta, poderá compreender as consequências de seus atos no outro e se ocupará da culpa, etc.

Isso não significa que até aqui tudo pode. Pelo contrário, nós precisamos cuidar para que a criança não cause grande mal a si e aos outros, pois ela mesma não tem condição de fazer esse cálculo. Mas significa também que não adianta lidar com as manifestações dessas crianças pela via da moral: isso é o correto, isso é errado, e se ela faz o errado é porque não aprendeu, porque não estão ensinando o certo para ela. Certo e errado é uma noção muito sofisticada que ainda será atingida. A criança pode sim ser condicionada a realizar ações que queremos, pode repetir e reproduzir ensinamentos, mas acreditar que ela realmente sabe do certo e do errado é uma ilusão.

Temos que ajudá-los a alcançar esses conceitos: o bom e o mal, o certo e o errado. E eles não vão atingi-los ‘de fora essay-it.com para dentro’, mas ‘de dentro para fora’. É só através de uma experiência pessoal, das vivências pessoais e do tempo inerente de maturação da personalidade que eles atingirão a moral, que no início é: me agrada ou me desagrada e se desenvolve para agrada minha mãe ou desagrada minha mãe e eu me identifico com ela, então assumo para mim.

Lembro-me de uma menina que estava com três anos e que não queria largar a chupeta. Todos tentavam dizer para ela que aquilo era errado, que aquilo a prejudicaria, que ela teria que usar aparelho nos dentes, que crianças de 3 anos não chupavam chupeta. E é claro que isso não adiantava em nada. Os pais tentavam um apelo de se mostrarem muito decepcionados com ela, e isso só aumentava a tensão. Pois nem a grande importância em manter a boa relação com os pais podia fazê-la largar a chupeta. E ela tinha então três problemas: a necessidade da chupeta, pais irritados com ela e os futuros aparelhos nos dentes.

Buscando uma compreensão sobre a maneira de ser daquela menina, percebemos que a chupeta desde sempre foi usada pelos pais, avós e logo por ela, para contê-la. Ela tinha sido um bebê muito irritadiço, era uma menina muito agitada, muito forte, com muita disposição física e ela só conseguia entrar num estado relaxado e calmo através da chupeta. Assim, do ponto de vista da menina, a perspectiva de ficar sem a chupeta era a perspectiva de não mais experimentar o relaxamento, de não mais dormir. Ela não podia ficar sem isso! Enfim, não se tratava da menina compreender, entender o certo e o errado. Tratava-se dos seus cuidadores compreenderem em função do que ela tinha aquele hábito e tentar ajudar a menina a encontrar alternativas para aquilo – pois ela de fato poderia ser prejudicada pelo uso prolongado da chupeta.

Não foi fácil, mas a mãe foi buscando novas alternativas à chupeta. O que exigiu que ela, mãe, tivesse que despender mais tempo com a menina: passou a ler mais para a menina, a conversar mais, a estar junto assistindo a TV, a propor jogos e brincadeiras que exigiam maior concentração e permanência da menina e logo a menina conseguiu realizar isso na escola. Durante o dia, a mãe conseguiu com que a chupeta perdesse sua necessidade. Mas, era impossível para a menina dormir sem a ajuda da chupeta.

E nesse momento, no exercício de encontrar o sentido singular e a maneira única de lidar com esse problema, a mãe se deu conta de um aspecto que apimentava toda situação: essa mãe de primeira viagem havia se apoiado muito na sua própria mãe, a avó da menina, para cuidar de sua filha. Ou seja, a avó tinha grande participação e influência na educação da neta. E a avó estava tendo grande dificuldade com o crescimento da menina, com o fato dela ir cada vez mais se tornando independente e tendia a tratar a menina como bebê. A mãe se empenhava em buscar alternativas para a chupeta, mas quando a avó estava presente, tudo o que tinha sido conquistado parecia se perder, pois a avó oferecia a chupeta para toda e qualquer situação que exigisse algum esforço dela. Além disso, a avó era uma senhora que por toda vida sofrera de insônia e fazia uso de medicação para dormir. Ou seja, ela mesma não tinha recursos próprios para dormir e logo se desesperava diante da tarefa de ter que encontrar meios de fazer a neta dormir.

Concluindo essa história, a mãe empenhada, percebeu que aquilo que inicialmente apareceu como solução para o constante estado irritadiço e desconfortável de sua filha bebê (a chupeta) tinha se tornado um problema. Mãe e avó se acomodaram e postergaram uma tarefa. Para ajudar a filha, a mãe precisou também abandonar aquele apoio, a avó, pois não poderia cuidar das questões da avó naquele momento. Passou a usar menos o auxílio da avó, a deixar a menina dormir menor número de vezes na avó – e assim a mãe precisou restringir novamente sua vida social – e com o apoio do marido e dos tios, fez um acordo com a menina: a chupeta seria entregue ao Papai Noel.

No natal, os tios presentearam a menina com possíveis auxiliadores do sono: um urso macio chamado soninho, um livro de histórias, um diário para ser escrito junto com a mãe todos os dias antes de dormir. A menina conseguiu fazer a entrega da chupeta. Mas infelizmente a substituição não seria assim, mágica. E a mãe e o pai estavam dispostos a estar com a menina nas noites mal dormidas. Ela chorou muito naquele Natal. Por fim, dormiu de cansaço e no dia seguinte acordou a mãe muito alegre: “Mãe! Eu consegui! Eu não uso mais chupeta!”

Obviamente que ela teve mais noites mal dormidas, pediu pela chupeta, teve conversas com a mãe em que se confessava saudosa da chupeta e arrependida em tê-la entregue ao Papai Noel, mas a mãe, de posse da compreensão da necessidade da filha, conseguiu sustentar o cuidado necessário para seu crescimento. Hoje, a menina precisa de um abajur ligado para dormir. E quando não consegue dormir, pede que a mãe faça cafuné nela e ela dorme. É uma menina que se realiza na motricidade, que tem prazer e se realiza com o correr, a dança, nadar, jogar bola – isso apresenta o seu modo de ser e não precisa ser modificado. Mas, todos precisam relaxar, descansar e dormir. E essa menina hoje já adquiriu a condição de saber e conseguir estar noutro estado. Ela costuma dizer “Acho que agora eu preciso fazer uma coisa mais calminha.”
Enfim, “como e quando tirar a chupeta” pode ser uma tarefa que muitas mães enfrentam. Mas cada uma terá que encontrar um modo próprio que deverá estar de acordo com o uso singular que o filho faz daquele objeto. E assim é com cada sintoma, com cada expressão que é reconhecida como um sofrimento, como um problema enfrentado pela criança. E assim, o critério de normalidade diz respeito a esse conjunto criança-ambiente. Uma criança apresenta sintomas, como o uso prolongado da chupeta, recusar alimento, urinar na cama, ter explosões e isso é considerado normal se esses sintomas estão cumprindo com uma função e o ambiente pode ajudar a criança a passar por esse sintoma, ou seja, compreender a função que eles cumprem e auxiliar a criança, ou simplesmente esperar que ela consiga recursos mais sofisticados e menos penosos para lidar com aquela dificuldade.

Se pais e cuidadores (o ambiente) souberem ‘em função de que’ se deve toda agitação de sintomas, o ambiente não entrará em pânico e estará apto a encontrar um modo natural e único para dar a assistência necessária a criança. É maravilhoso o que uma criança pode conseguir, no fim, só porque alguém que é pessoalmente responsável continuou calma e constantemente atuando de um modo natural.
Lembro-me de uma menina que ganhou um irmão. Aos dois anos ela pedia por um irmão como quem pede por um brinquedo. Aos três anos, dizia para a mãe que queria um irmão para poder brincar e dar seus brinquedos – a mãe percebia que ela ansiava por companhia de mais crianças. Aos 4 anos sua mãe engravidou. No momento da gestação o irmão serviu para que ela se identificasse com a mãe e se colocasse como quem seria a auxiliar da mãe no cuidado com o bebê e ela brincou muito de ser mulher – a mãe acompanhou as brincadeiras com prazer. Com o nascimento do irmão, ela sofreu a desilusão de não poder prover nenhum cuidado ao bebê e passou a vivenciar as perdas e reclamava que todas as pessoas só estavam interessadas em seu irmão. Perdeu o centro das atenções. A mãe não se desesperou e manteve-se ao lado da filha, sem tentar enganá-la. A menina oscila em período de desânimo e inveja, e momentos de grande prazer em brincar sozinha e em estar em momentos a sós com o pai e a usufruir de programas com tios e padrinhos sem os pais. Mas, percebe-se sua hostilidade em relação ao irmão e suas falsas demonstrações de carinho – e isso é absolutamente normal, e sua mãe continua atenta ao que ela vive e não exige dela outra reação.

Gradualmente, com a relação entre os dois, o ódio cederá lugar ao amor, na medida em que esse novo bebê se converter em alguém com quem se pode brincar e de quem possa sentir orgulho. Certamente, o irmão será palco para diversas questões, para indas e vindas de sentimentos, durante o resto de sua vida.
A dificuldade imposta a todos nós desde o nascimento é a de lidar com duas realidades: a interna e a externa. Inicialmente o bebê precisa que o externo se adapte totalmente às suas necessidades e com o passar dos anos é exigido das crianças que elas se adaptem e negociem com a realidade externa.

Assim, uma das principais tarefas de quem cuida de crianças é auxiliá-los na transição da ilusão para a desilusão, auxiliá-los na compreensão e discriminação de sua realidade interna e externa. Muita da gritaria e explosão colérica infantil gravita em torno dessa luta entre realidade externa e interna – e essa luta deve ser considerada normal.

Uma criança que por vezes é surpreendentemente madura aos quatro anos e meio se converte de súbito num bebê de dois anos quando precisa que a tranquilizem por causa de uma queda e é suscetível de tornar-se ainda mais infantil na hora de dormir. Assim, até os cinco anos de idade a criança está desenvolvendo uma elaboração gradual do eu como um todo e também um desenvolvimento gradual da capacidade de sentir que o mundo externo e o mundo interior são coisas relacionadas, mas não idênticas ao eu; e o eu é individual e particular e jamais igual entre duas crianças.

Assim, do ponto de vista da psicologia, o que esperamos é que até os cinco anos de idade a criança já se sinta um ser inteiro, já esteja lidando com as relações triangulares (e aqui se evidenciam conflitos de amor e ódio, ciúme, inveja) e esteja identificada com o pai ou com a mãe, e que tenha inúmeros episódios regressivos. Até então ela não se orienta pela moral, mas inicialmente pela força de seus instintos e necessidades, caminhando gradualmente para a ação que imita, que absorve o ambiente, as figuras com as quais se identifica.

Isso pode ser reconhecido na seriedade da brincadeira para as crianças. E por isso mesmo nós adultos temos que poder respeitar muito a necessidade e o conteúdo do brincar. Deve-se esperar a criança possuída por personagens, animais e nos impondo nos relacionarmos com o imaginário como se fossem reais, pois ali, algo do seu mundo interior está sendo mantido na exterioridade por uma boa razão.

Assim, ao invés de fazer uma lista de sintomas possíveis e das dificuldades que o desenvolvimento comum impõe, vou concluir com uma sugestão amistosa: estimulemos a capacidade de brincar da criança. Se uma criança estiver brincando haverá lugar para um sintoma ou dois. Se nessas brincadeiras se puder observar que há uma fértil imaginação e há nelas a inclusão de aspectos da realidade, então a mãe pode sentir-se bastante feliz, mesmo que a criança em questão urine na cama, gagueje, tenha explosões de mau humor. A capacidade de brincar revela que essa criança é capaz, junto a um ambiente razoavelmente bom e estável, de desenvolver um modo de vida pessoal dentro do mundo compartilhado.

Tânia Possani
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