A Random Image

Por que as crianças contam mentiras?

Por Carla Campos e Cristiane Rogerio (Revista Crescer)

Mentira é uma verdade que esqueceu de acontecer

Só com a poesia de Mario Quintana a gente engole melhor o ato de mentir. Se pararmos para pensar bem, é exatamente esse o nosso sentimento em relação a ela, não? Os psicanalistas Diana e Mário Corso, autores de Fadas do Divã (Ed. Artmed), explicam a verdade da frase do poeta gaúcho sobre a mentira. “É inverídica quanto ao fato, mas verdadeira quanto ao desejo de que ela venha a expressar”. Assim não fica mais fácil entender que, quando você perguntou ao seu filho se ele havia quebrado o vaso da sala, a primeira resposta dada por ele tenha sido “não, não fui eu”?
Dos anos de atendimento da psicanalista Ceres de Araújo, autora de Pais Que Educam (Ed. Gente), ela conclui que um dos maiores problemas dessa situação é exatamente a pergunta dos pais. É como se déssemos às crianças uma grande oportunidade para mentir. Até 4 ou 5 anos, a criança confunde realidade com fantasia, ou seja, acredita realmente naquilo que está dizendo (como afirmar a existência de um amigo imaginário, por exemplo).
Depois disso, a mentira frequente é a com caráter intencional, quase sempre automática, e acontece quando a criança está prestes a ser repreendida caso seja verdadeira na resposta. Ela mente para escapar de determinada repreensão. “Seria mais útil, no entanto, que, em vez de fazer a tal pergunta que o adulto sabe muito bem a resposta, já partisse para conversar sobre o ato inadequado em si”, aconselha Ceres. Se há algo a que a criança realmente deva ser estimulada é ter coragem de dizer a verdade – mais ou menos como aconteceu com o boneco Pinóquio, o grande clássico da literatura mundial para crianças, escrito pelo italiano Carlo Collodi, e que terá a versão da Disney relançada neste mês, 70 anos depois.
O que o boneco ouviu da Fada Azul é o que gostaríamos que as crianças crescessem entendendo.
Existem dois tipos de mentira: as de pernas curtas não alcançam o objetivo e as de nariz comprido sempre acabam denunciando a farsa. Entenda a seguir um pouco mais sobre a mentira das crianças.

6 verdades sobre a mentira de criança
Os motivos para a mentira acontecer são muitos. Vão desde insegurança e autoestima ferida, até repetição de um comportamento que a criança aprende pela vivência no mundo dos adultos: mentir para não magoar o outro

  • Medo da autoridade

É um recurso da criança quando quer evitar problemas e punições por ter feito algo de errado. Diz que não foi ela, incrimina o cachorro, o vizinho, o passarinho, faz de tudo para não ser descoberta.
>>MELHOR FORMA DE AGIR: converse com calma, sem levantar a voz, para que ele confie em você e não reaja por medo. Diga quanto é importante ele assumir um erro. Ambientes muito rígidos levam a criança a mentir ainda mais. Ir para o outro extremo também não resolve, pois a indiferença e a distância são nocivas: a criança pode interpretar isso como se estivesse perdendo o amor dos pais e, a partir disso, mentir será seu único recurso.

  • Contar vantagem

Mentir como forma de compensar os limites e as impotências do dia a dia é bastante comum. Autoestima aqui é o sentimento a se cuidar. Pode acontecer em uma situação simples como, por exemplo, quando a criança tem na escola um amigo que corre muito mais rápido do que ela. Para se autoafirmar, conta feitos que nunca realizou. Esse tipo de situação varia muito conforme quem “assiste” à mentira contada. Se a criança entender isso como um valor, ou seja, como algo de retorno de atenção fácil, ela pode permanecer com o hábito para a vida toda. E o grave é que, em um ambiente social adulto, a mentira fica mais evidente e perigosa.
>>MELHOR FORMA DE AGIR: trabalhe com a criança as características que ela tem. Procure salientar como ela desenha bem, por exemplo, e diga que tudo bem se ela não correr tão rápido: afinal, ela ainda pode admirar o amigo veloz. O mais válido nesse caso é ela entender que você a ama e que ela não precisa ser a melhor, a mais inteligente ou a mais rápida, pois tem o amor dos pais do jeito que é.

  • Proteger a própria imagem

A imagem da criança “boazinha” ou bacana, que se dá bem nas situações ou realiza suas conquistas, está impregnada em nosso dia a dia, mesmo que os pais lidem com isso de forma equilibrada. Por isso, essa preocupação com a própria imagem pode acontecer perante os pais ou a autoridade (professor, babá, avós etc.), os amigos e diante de si mesmo. Ela quer ser querida por todos.
>>MELHOR FORMA DE AGIR: tenha cautela ao falar com a criança. Procure não humilhá-la chamando-a de “mentirosa” ou apontando seus erros. Tente focar a conversa na ação específica. Coloque-se no lugar da criança: o que gostaria de ouvir se pegassem você inventando uma história?

  • Imitar os pais
Se o modelo principal das crianças são os pais, é óbvio que, se esses adultos têm o hábito de mentir, os filhos certamente vão imitar. Vira solução fácil para os problemas. E a mentira passada dentro de casa pode ter várias formas, como, por exemplo, agir sorridentemente quando está à frente daquela tia de quem você não gosta muito e falar mal dela “pelas costas”.
>>MELHOR FORMA DE AGIR: aqui o primeiro passo depende da coerência dos pais. Se você quer criar uma criança honesta, precisa conviver com isso. A criança não entende por que o pai diz “mentir é feio” e, depois, quando alguém com quem ele não quer falar liga, o pai pede para dizer que não está. O melhor é evitar essas situações. Caso a mentira seja para imitar um colega, é importante apontar as consequências do ato. A principal delas é a perda da confiança das pessoas, o que torna a vida bastante difícil.
  • Esconder angústia e frustrações
A criança pode estar passando por um momento difícil e usa a mentira para acobertar o que não está indo bem.
>>MELHOR FORMA DE AGIR: fique sempre muito atento. Desde situações mais comuns, quando a criança inventa dores frequentes para não ir à escola – e isso aponta que algo não vai bem por lá –, até ela começar a evitar situações que envolvam novidades e expectativas, como um curso novo, uma viagem, dormir na casa de alguém. É por isso que conversar e não reprimir de imediato é tão importante. E, se o problema for específico com a escola, levar o fato até o coordenador ou o professor é fundamental. Se o caso se tornar extremo, procure a ajuda de um profissional.
  • Mentira social
Muito comum na vida adulta, na maioria das vezes tem como intuito não magoar a outra pessoa. É aquela mentira que muitas vezes pode ser encarada como “algo que faz parte da vida”.
>>MELHOR FORMA DE AGIR: mostre para a criança que ela não precisa dizer que adorou o brinquedo que a avó deu, se ela não gostou, mas que ela deve sempre agradecer, porque a avó pensou nela com carinho quando lhe comprou o presente. Esse tipo de situação pode ajudar a criança a desenvolver argumentos. Outro bom exemplo ocorre quando a criança encontra a vizinha e diz: “Como você é feia!”. É importante, primeiro, que os pais não a repreendam de forma constrangedora. Depois, porém, é preciso conversar e explicar que ela não precisa dizer tudo aquilo que passa pela cabeça e que muitas coisas podem deixar as outras pessoas tristes. Esta é uma maneira de ensinar o que é ter compaixão por alguém.

A HABILIDADE DE MENTIR

A professora canadense Victoria Talwar, do departamento de educação e conselho psicológico da Universidade McGill, de Montreal (Canadá), começou a estudar o comportamento das crianças há dez anos e deu de cara com ela: a mentira. Seu interesse, a princípio, era no desenvolvimento cognitivo das crianças e na habilidade delas de entender a perspectiva do outro. Chegou à conclusão de que “mentir é um comportamento que demonstra essa habilidade”. É como se a honestidade exigisse, digamos, menos esforço. “Para mentir – e mentir bem –, a criança precisa entender no que a outra pessoa acredita e saber de maneira estratégica adaptar a falta de verdade para ser plausível”. Mas isso não simplifica em nada essa história.

Com quantos anos as crianças começam a mentir?

Algumas antes dos 2 ou 3 anos. Quando chega aos 4, a maioria diz mentiras ocasionais. Isso parece se desenvolver mais ou menos ao mesmo tempo que outros sinais cognitivos, uma consequência da sofisticação desse crescimento.

Existe um período no qual mentir é normal?

Sim. Por nossas vidas inteiras. Estudos feitos com adultos sugerem que nós contamos cerca de sete mentiras por dia. A maioria delas, pequena. Por exemplo, quando uma amiga pergunta se você gostou do vestido dela, mesmo achando a cor feia, você diz que gostou, para não a ofender. O que não é normal é mentir cronicamente e, quando chega aos 10 anos, a maioria das crianças mente desse modo. Já as bem novinhas vão mentir mais indiscriminadamente, como negar que bateu no cachorro, quando você estava lá e viu que foi ela. É assim que aprendem o que podem ou não fazer.

É verdade que crianças espertas mentem mais?

É mais provável que crianças inteligentes mintam mais cedo e contem mentiras plausíveis. Você pode dizer para um pai que vê seu filho de 2 anos e meio mentindo que ele deve se alegrar porque a criança está começando a desenvolver suas habilidades cognitivas, que são vitais para o crescimento futuro. Claro, continuamos querendo ensinar nossas crianças a ser honestas. Mas podemos ver que a mentira é o resultado inicial de um desenvolvimento positivo e depende dos pais ensinar seus filhos a ser honestos.

Como não confundir mentira com fantasia?

Frequentemente são confundidas. Fantasia é brincar de faz de conta, e isso é uma parte muito rica da vida imaginativa; as crianças aprendem sobre o mundo e incentiva a criatividade delas.

O que fazer quando a mentira é uma influência, ou seja, quando é o amigo que mente e aí ele passa a mentir também?

Os pais devem contar para os responsáveis do amigo da criança, mas eles podem não acreditar. Está nas mãos deles lidar com os próprios filhos. De qualquer forma, você pode falar com a criança sobre a importância de dizer a verdade e lidar com esse comportamento mentiroso. É importante também explicar que algumas vezes outras pessoas mentem, mas que isso não torna a mentira um comportamento aceitável.