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Sobre o tempo e os processos de desenvolvimento

Ultimamente tenho percebido que o que temos de maior valor e de mais escasso é o tempo. Muitas das questões comuns da vida tornam-se grandes problemas e com resolução impossível porque nos falta o tempo.

E, ao se pensar no desenvolvimento de uma criança, um dos fatores fundamentais a se considerar é o tempo. Tempo como algo que ela ainda irá conquistar no sentido da percepção e domínio, assim como pensar o tempo como a dimensão que garante os processos de amadurecimento. E esta última é a dimensão que geralmente perdemos de vista, em função do ritmo em que vivemos.

Uma criança não começa a andar de um dia para outro – embora com a dispersão de nossa atenção para as diversas demandas da vida, muitas vezes assim percebemos a conquista ou mudança de uma criança. Mas, quem acompanha uma criança com frequência e atenção pode observar com clareza como esse processo se dá: pode reconhecer todo ganho de movimento, todo o desenvolvimento do equilíbrio, o empenho em ir à busca de um objeto ou uma pessoa. Enfim, a criança conquista a marcha como fruto de um processo de amadurecimento que demanda tempo.

E não há nenhum outro aspecto humano que não seja fruto de um processo que demanda um tempo de amadurecimento. Assim acontece com a formação de uma identidade, com a construção de uma noção de si e do outro, com a possibilidade de pensar sobre os próprios sentimentos e encontrar meios de comunicação e satisfação. Ou seja, a organização psíquica também vai acontecer ao longo do tempo, como fruto de um processo de amadurecimento. Do ponto de vista externo, a criança já parece alguém integrado, como uma unidade. Mas, do ponto de vista da criança, ela está construindo a si mesma, adquirindo uma noção de si, adquirindo domínio sobre suas vontades, aprendendo a reconhecer relação entre seu pensar, seu sentir e seus gestos. Ou seja, a individualidade não está garantida. É preciso tempo de experiência de si nas relações e contextos para estabelecer uma identidade e uma organização que a criança reconhece como sendo “eu”.

Considerando isso, seria um alívio poder pensar que apenas contar com a passagem do tempo garantiria que um ser humano se tornasse uma pessoa sã e saudável. Mas não é disso que se trata. O ser humano nasce potencialmente dotado de tudo o que precisa para se desenvolver, mas este potencial herdado só se realiza através do cuidado de outros.

Assim, para que um ser humano cresça é necessário que ao menos mais um ser humano esteja implicado e devotando seu tempo para garantir os processos necessários ao desenvolvimento. Esse ‘mais um’ pode ser substituído por cada vez mais pessoas ao longo do crescimento, desde que a constância no tempo que cada processo exige seja garantida. Uma criança de 3 anos pode ser alimentada pela mãe, pela avó ou pela escola, desde que respeitados seus horários, as quantidades e as qualidades do alimento que necessita. O corpo da criança desenvolve então um ritmo, um “conhecimento” que lhe informa da saciedade e a “autoriza” a gastar suas energias e tolerar certa fome até a próxima refeição. Mais adiante, a criança já crescida saberá quando e o que escolher para comer.

E nesse sentido, é da mesma forma que os processos físicos se dão, que os processos emocionais e psíquicos também se sofisticam e se regulam. Uma criança, por exemplo, não compreende e nem tolera um não do dia para noite. O processo do não se anuncia para a criança lá nos primórdios, quando gradativamente ela já não vai sendo atendida a cada choro, quando gradativamente a mãe sente que ela pode esperar um pouquinho mais até ser atendida. Ela vai então sendo desiludida à respeito do mundo não acontecer de acordo com as suas necessidade e suas exigências. Vai percebendo que há um outro que tem independência e não está lá só para atendê-la. E agora? Como fazer para ser atendida? Gritar mais alto? Vai então se dando conta de que há um campo de comunicação entre um e outro, e que é através desse campo que ela pode obter o que precisa. Vai então tentar ter domínio sobre esse campo. Torna-se curiosa com a linguagem, tenta falar, descobre que se chorar bastante conquista o quer, que se jogar no chão também tem grandes resultados, que se os pais estiverem bem esgotados é garantia de desfazer o não! Esse é um dos caminhos possíveis, bem caricaturado, que serve apenas para ilustrar e fazer pensar o seguinte: no campo das relações interpessoais, aquilo que acontece com constância no tempo acaba constituindo uma forma de se relacionar e servindo como um dos determinantes de um modo de ser.

Acompanhar e cuidar dos processos de desenvolvimento de um modo de ser, da constituição de uma identidade exige tempo em relação. O cuidado nesse campo significa se relacionar com a criança e com as questões com as quais ela está lidando. Isso muitas vezes faz quem cuida revisitar lugares esquecidos, lugares desagradáveis e até lugares nunca visitados. Isso muitas vezes não está nos “cálculos” dos cuidadores. Muitas vezes, está-se disposto a tudo, menos ter que se haver com suas próprias inibições e angústias, tampouco ter que rever os destinos que se deu aos próprios sentimentos e conflitos. Mas é essa qualidade de presença que a criança exige para se desenvolver.

O que tenho visto é que essa dimensão é muitas vezes tratada de forma pedagógica. Falar sobre, dizer para a criança como ela deve ser, como se deve agir, não significa estar se relacionando com ela, e logo, não cumpre a função necessária. É comum eu ouvir de pais que diante da agressividade de um filho ficam espantados: “Mas em casa a gente sempre disse que não pode bater”. As crianças precisam de ajuda para aprender a lidar com a agressividade natural, para conseguir dar um bom destino ao ódio. Muitas vezes, nomear o que está acontecendo é bom, mas de nada vale se a ação em relação à criança não for coerente com o afeto em questão. A criança só vai apreender as conseqüências da expressão do seu ódio diante de outros que respondam a ele de forma viva, afetada. Ou seja, a criança agride e quem está diante dela é agredido – e mesmo que se compreenda a inabilidade da criança não se deve deixar de ser alguém que está lá, sendo o alvo daquela expressão. E o cuidado aqui não é o revide, a violência, mas a ação que impõe um limite por ser orientada pelo afeto sentido (e não orientada por uma regra que alguém disse que é correta).

Outro exemplo: uma criança que está insegura e carente diante da chegada de um irmão, e não vai conseguir solucionar seus conflitos com orientações ou broncas de como ela deve se comportar para ser uma boa criança. Tampouco com as falas “falsas” que tentam “apagar” a realidade, que dizem que nada mudou nem vai mudar. É preciso entrar em contato com o sofrimento da criança, com a situação que ela vive e ser alguém com quem ela pode se relacionar verdadeiramente.

E comportamentos que são conquistas num determinado ponto do processo de desenvolvimento, se não se desenrolam, podem ser muito inadequados e impeditivos noutro ponto mais adiante. Manter o processo de desenvolvimento de uma criança demanda tempo, numa qualidade de presença que se garanta a continuidade dos processos. E se esse tempo de cuidado se faz por várias mãos, estas devem agir em coerência.

Equipe My School, Tania Possan, Psicóloga e AT, Equipe HabitAT de Acompanhamento Terapêutico, Contato: 8281-4567